SOBRE AS POSSIBILIDADES DE COMPARAÇÃO ENTRE AS LITERATURAS LATINO-AMERICANAS E A MOÇAMBICANA: OS CASOS DE MIA COUTO E UNGULANI BA KA KHOSA
Gilberto Matusse[1] refere o fato de diversos autores salientarem a existência de uma relação privilegiada entre as literaturas africanas e as latino-americanas, a qual pode ser explorada tanto ao nível do paralelismo dos processos que levam ao surgimento de umas e de outras – o que tem justificado a sua classificação como ‘literaturas emergentes’[2] –, como ao nível de influências específicas que normalmente se verificam no sentido América Latina-África. De fato, uma proximidade estética e temática entre as narrativas dos moçambicanos Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa, e as dos autores da nova narrativa hispano-americana, mais do que refletir uma relação privilegiada entre as respectivas literaturas, reflete uma idêntica exploração temática e estética, a qual merece, efetivamente, ser examinada, seguindo qualquer um dos caminhos apontados por Matusse. É na tentativa de encontrar uma plataforma metodológica adequada ao exame dessa proximidade que o presente trabalho discute a pertinência de cada um dos níveis de análise propostos por Matusse, focalizados, neste caso, na relação privilegiada entre as escritas dos dois grupos de autores, numa reflexão de ordem teórica a partir da qual se espera extrair indicadores de base que nos permitam esboçar e desenvolver um trabalho comparativo entre as narrativas dos autores moçambicanos Couto e Khosa, e as dos autores hispano-americanos.
No que diz respeito ao nível de análise das influências específicas, é claramente aludida a parte mais representativa dos estudos comparados franceses, na qual predominam as relações ‘causais’ entre obras ou entre autores. Trata-se de um procedimento que aponta, entre outras direções, para uma análise baseada em condições genuinamente genéticas, onde a pessoa e o exemplo do escritor, ou a obra influente sobre certos estados psíquicos do poeta ou momentos da vida do romancista, intervindo no processo de gênese e de criação, funcionam como ponto de partida para um estudo comparado[3].
Reconhecendo, embora, a validade de um estudo desta índole, notadamente, no que diz respeito ao aprofundamento do conhecimento da obra do autor-receptor, na sua relação com a obra do autor-emissor, estamos em crer que, exatamente por isso, este tipo de estudo não seria capaz de dar conta de ocorrências textuais procedentes do meio de onde emergem os autores moçambicanos, ou da história e da sociedade nas quais se encontram inseridos, acabando por resvalar num estudo atomista concentrado na própria obra entanto que artefato verbal. Assim, parece-nos oportuno lembrar, junto com Zhirmunsky, que este tipo de abordagem aos estudos comparados tem dado
origem a uma atitude geralmente cética em relação a um método de comparação de fatos literários indiscriminado e formal, que consistentemente ignora fatos relevantes, como, por exemplo, a personalidade criativa do autor, a conexão de sua obra com a vida social que ela reflete, sua origem nacional e histórica e as adaptações ao tempo, lugar e individualidade, aos quais tais ‘empréstimos’ necessariamente se sujeitam[4].
Daí entendermos que tal estudo apenas daria conta das formas evidenciadas na materialidade literária da obra, reduzindo-se a uma mera experiência estética. No entanto, e na esteira de Guillén, é preciso ter em conta que “a vivência da obra literária – una e também diversa – não é somente estética” [5].
De acordo com este autor, existe toda uma multiplicidade de relações que indicam a solidariedade da obra com as estruturas da sociedade e dos rumos do devir histórico. Essas relações, além da crítica, são iluminadas pelas contribuições da história e da teoria literárias.[6] Neste sentido, julgamos que um estudo da proximidade da escrita de Couto e Khosa aos autores hispano-americanos, na perspectiva de “influências específicas”, seja melhor orientado tomando como ponto de partida a segunda acepção do conceito de influências apresentado por Nitrini[7], a qual se socorre de Cionarescu: isto é, como resultado artístico autônomo de uma relação de contacto (grifo nosso), onde o termo ‘contacto’ é entendido como conhecimento direto ou indireto de uma fonte por um autor. Um estudo assim orientado, estamos em crer, permitiria captar, não só a arte literária destes autores, na sua relação com os outros, como também o que de específico existe nas suas obras, espelhando as especificidades próprias dos seus autores, incluindo os indícios de contacto entre estes autores e os outros, ou vários outros.
Julgamos, igualmente, que é neste sentido que deve ganhar relevo a colocação de Álvaro Manuel Machado e Daniel-Henri Pageaux, citados por Matusse[8], quando afirmam que entre a América Latina e a África traçam-se caminhos ‘transversais’, evitando ou contornando o conjunto europeu, o que na óptica de Matusse – que nós corroboramos – sugere “uma atitude de deliberada demarcação em relação às influências europeias, que [...] simbolizam a colonização e a perda da identidade”; ou, ainda, a colocação de Chevrier, citado nas mesmas páginas, quando diz que as correntes latino-americanas estão entre as influências extra-ocidentais[9] mais procuradas pelos escritores africanos, o que leva alguns autores a associar essa atitude à tropicalidade que serve de denominador comum a ambos os continentes. É de crer que é no reconhecimento da validade destas afirmações que Matusse propõe a investigação da influência latino-americana em autores moçambicanos, como uma das direções a explorar no âmbito dos estudos comparados, uma vez que o não equacionamento dos fatores colonização e identidade, num estudo do gênero, pode constituir uma limitante às potencialidades analíticas da significação contida nos textos dos autores moçambicanos. Mesmo assim, e tendo em vista uma melhor adequação deste tipo de análise, seria igualmente de considerar o uso dos conceitos de convenção e de tradição, de Guillén, posto que
uma influência literária não é um impulso mecânico e acidental vindo do exterior, ou um mero ‘acontecimento’ na vida de um escritor ou de um grupo de escritores. Cada influência é um fato social historicamente condicionado e determinado pelo desenvolvimento interno da literatura nacional em questão[10]. (grifo nosso)
De fato, a escrita de Couto e Khosa, autores que surgem nos anos 80 na costa do Índico, emerge já inserida num contexto situacional em que outras obras, de autores moçambicanos, já se haviam inscrito como narrativas referenciais em Moçambique. O Livro da Dor (1925), por exemplo, uma coletânea de contos de João Albasini, estabelece o próprio marco inicial da publicação em livro de textos narrativos escritos em língua portuguesa, em Moçambique, e cujo autor é moçambicano. Godido e Outros Contos (1952)de João Dias, Nós Matámos o Cão Tinhoso (1964) de Luís Bernardo Honwana, e Portagem (1966) deOrlando Mendes, são narrativas que, com uma técnica mais apurada e abordando temas que vão desde a descriminação racial, à injustiça social, se configuram como sintoma de uma época existencial, cultural e social, interagindo, indubitavelmente, com as estruturas da sociedade e com o devir histórico. Obra de transição entre a fase da alvorada nacionalista e a de protesto, Godido e Outros Contos representa a própria tomada de consciência do homem moçambicano negro, como colonizado, retratando essa condição em tramas de forte carga racial; Nós Matámos o Cão Tinhoso, de Honwana, retoma os caminhos abertos por João Dias em Godido, constituindo-se como um texto de questionamento da situação de descriminação racial e de todas as (in)corporações que lhe são inerentes[11], derivadas, evidentemente, do sistema estabelecido, colocando, no dizer de Manuel Ferreira[12], a relação dialética colonizado/colonizador através das formas mais subtis, através de várias personagens e situações. Orlando Mendes alarga essa abordagem com Portagem,narrativa que recupera as estruturas sociais através de personagens conscientes da sua condição de colonizados, e que reagem a esse sistema, questionando-o, construindo a trama do mulato João Xilim, produto e vítima do sistema colonial, e que procura em vão compreender a sociedade africana minada pela presença do europeu. Partir, pois, para um estudo da influência latino-americana em Couto e Khosa, ignorando o confronto que as suas obras possam ter tido com estas, dos seus predecessores moçambicanos, e com as estruturas da sociedade onde vivem, quer do ponto de vista temático, quer estético, equivaleria a situar aqueles autores no grau zero da narrativa moçambicana escrita em língua portuguesa, o que não corresponde à verdade.
Como autores empíricos que são, Couto e Khosa constituem-se, antes tudo, como seres sociais, transportando consigo toda a carga de experiências vivenciais a eles inerente, haurindo daí determinados conhecimentos, além de terem efetuado determinadas leituras. Conseqüentemente, transportam consigo todo o lastro de tensões e conflitos gerados pelo drama de uma sociedade colonizada como a sua, encontrando-se, ou não, numa relação de discordância, ou mesmo de hostilidade, com os valores ideológicos prevalecentes na comunidade histórico-social em que vivem[13]. É nossa percepção que nas obras acima referidas, de Albasini a Mendes, há toda uma herança discursiva, estética e temática, à qual os novos autores não podem pura e simplesmente ter fechado os olhos, não podendo, por isso, ser descartada num estudo de influências em Couto e Khosa. A acontecer isso, corre-se o duplo risco de se falsear o condicionamento histórico subjacente à emergência do tipo de escrita que estes autores introduziram e cultivam em Moçambique, caindo-se na subestimação do determinismo elaborado pelo próprio desenvolvimento interno da literatura moçambicana no surgimento dessa mesma escrita.
Contudo, ao apontar o paralelismo dos processos que levam ao surgimento quer das literaturas latino-americanas, quer das africanas, como a outra alternativa viável ao estudo da relação privilegiada entre ambas, Gilberto Matusse não só mostra a possibilidade plural que os estudos comparados oferecem para a análise desta relação, como abre positivamente espaço para o tratamento da proximidade a que nos temos vindo a referir na perspectiva de outras orientações e/ou modelos disponíveis nessa disciplina, nomeadamente, aqueles que se ocupam de fenômenos e processos que, sendo geneticamente independentes – ou pertencentes a civilizações diferentes – implicam condições sociohistóricas comuns[14]. Não é, pois, por acaso que, na obra já aqui citada, dissertando sobre os domínios da construção de uma imagem de moçambicanidade literária, Matusse aponta a adoção dos modelos latino-americanos, por parte dos autores moçambicanos, exatamente por ela representar “uma identidade de condição no contexto geopolítico internacional e uma proximidade na visão do mundo”[15] (grifo nosso). Parece-nos estar aqui subsumida, por um lado, a condição de periferia a que estão votadas as literaturas de onde emergem as escritas por nós visadas, visto nascerem e existirem fora dos grandes centros decisores das metrópoles coloniais. Neste sentido, elas podem ser consideradas ‘literaturas emergentes’. Por outro lado, parece-nos estar igualmente subjacente a vinculação dessas literaturas a situações coloniais, fundamentalmente caracterizadas pela interação de culturas, fator deveras decisivo para a “proximidade na visão do mundo” acima aludida – profundamente marcada por essa encruzilhada cultural – podendo ser vistas, deste outro sentido, como ‘espaços de síntese’.
No que toca ao primeiro aspecto, o da condição de periferia, afigura-se-nos ideal operar com o conceito de literaturas emergentes, no sentido já referido na introdução deste trabalho. É que embutido da noção de ‘semiose colonial’, o conceito de ‘literaturas emergentes’ não só deixa de se restringir a sociedades ainda sob o domínio colonial, ou dele recentemente saídos, abarcando todas as sociedades onde o fenômeno colonial com toda a interação de elementos nativos com elementos coloniais que lhe caracteriza foi um fato, como também se torna um instrumento teórico capaz de abranger o complexo sistema de interações semióticas próprias das situações coloniais, com “a vantagem de [poder] ultrapassar os cânones literários e trazer para o campo de estudos não um conjunto de textos para serem interpretados, mas domínios de interações semióticas em que tradições orais e diferentes sistemas e tradições de escrita interagem”[16]. Note-se que ao abarcar todas as sociedades onde o fenômeno colonial foi um fato, este conceito permite-nos balancear e aproximar adequadamente a literatura moçambicana às literaturas latino-americanas, tendo em vista uma análise comparada das suas narrativas, entanto que textos literários; mas ao mesmo tempo, ao abranger o complexo sistema de interações semióticas próprias das situações coloniais, este conceito abre-nos amplas perspectivas para proceder à análise comparada das escritas reiteradamente referidas, num enfoque virado precisamente para os processos históricos e socioculturais subjacentes a essas formas literárias. Na verdade, o que aproxima a literatura moçambicana às literaturas latino-americanas é o fato de ambas nascerem e se desenvolverem sob a condição de periferia, à sombra das “literaturas-mãe” em função das quais existem: a portuguesa e a espanhola. Esta condição subalterna coloca a estas literaturas, à partida, a necessidade de romperem com esse periferismo, tendo em vista a afirmação de uma identidade própria, imperativo que, não tendo sido igual de parte a parte, nem linear em cada uma delas, contém elementos de tensão, de conflito e de ruptura, que apontam para um certo paralelismo nos percursos de busca e reconquista dessa identidade. Trata-se de uma busca e reconquista de uma identidade própria que se tornam compreensíveis quando analisadas à luz de todo um processo de imposição de modelos culturais por parte do Estado colonial, processo esse que nos parece caracterizar-se, basicamente, pelas dicotomias imposição/assimilação, conscientização/rejeição e afirmação/ruptura.
N’Os Condenados da Terra, Fanon dá conta desse percurso em três etapas: a primeira, em que o intelectual colonizado assimila a cultura do ocupante, fazendo corresponder as suas obras às dos seus colegas metropolitanos. A inspiração é européia e essas obras podem facilmente serem vinculadas a correntes bem definidas da literatura metropolitana. Na segunda, depois de aderir fortemente à civilização européia, o intelectual colonizado sente que precisa sair dessa cultura. É assim que retrocede a posições passionais tais que explicam o estilo vibrante dos seus textos, nos quais, os costumes, as tradições e os modos aparentes, são privilegiados. A terceira etapa corresponde à literatura de combate, à literatura revolucionária, à literatura nacional. Nesta, o intelectual colonizado, depois de ter tentado perder-se no povo, retrocedendo aos costumes, às tradições e aos modos aparentes, transforma-se em seu despertador. Contudo, sublinha Fanon,
no momento em que se dá o trabalho de fazer obra cultural, o intelectual colonizado não percebe que utiliza técnicas e uma língua emprestadas pelo ocupante. Contenta-se de revestir esses instrumentos de um cunho que pretende ser nacional mas que lembra estranhamente o exotismo... [e] por vezes não hesitará em valer-se dos dialetos para manifestar sua vontade de estar o mais perto possível do povo...[17].
Por seu turno, desde um ângulo de historiadora literária, e analisando a emergência de uma literatura moçambicana escrita em língua portuguesa, Fátima Mendonça[18] não diverge de Fanon ao dar conta do mesmo percurso também em três etapas: uma primeira, em que a emergência dessa literatura é atribuída ao determinismo gerado pelas políticas de assimilação e educacional do Estado colonial, cujos objetivos se resumiam na criação de um pequeno estrato educado dentro das concepções da cultura ocidental e que viesse a servir de suporte à manutenção do poder colonial. É desse estrato social, “os assimilados”, que emergem os primeiros homens de letras moçambicanos, produzindo obras com uma intenção marcadamente estética. A segunda etapa é caracterizada pela identificação da cultura imposta pelo poder colonial com as representações mais agressivas que dele tinham as comunidades locais: chicote, palmatória, trabalho forçado e imposto, situação que faz nascer no intelectual colonizado a necessidade de se identificar com o que de certo modo renegara: a sua cultura. A tendência dominante desta etapa é a convergência de índices reveladores de uma consciência de ser diferente, da afirmação de pertença a um grupo – étnico e social – diferenciado do grupo que exerce o poder, numa relação de colonizador versus colonizado. No âmbito literário, uma das conseqüências desta etapa histórica é a produção de textos que manifestam uma afirmação cultural africana, embora concebidos nos moldes de uma estética marcadamente européia. A terceira etapa é basicamente caracterizada pela rejeição do caráter colonial do contacto com Portugal. No seu conjunto, a produção literária assume a forma de tentativa de criação de um espaço literário nacional.
Partindo, pois, da abordagem geral de Fanon para a abordagem particular de Mendonça, quer nos parecer que na sua essência a busca e reconquista de uma identidade própria por parte das chamadas ‘literaturas emergentes’ não só obedece a um percurso aparentemente peculiar orientado pelas tensões, conflitos e rupturas presentes nas dicotomias imposição/assimilação, conscientização/rejeição e afirmação/ruptura, mas, e sobretudo, alicerça-se na dinâmica imprimida pelas políticas do Estado colonial aos processos históricos e socioculturais ocorridos nos países colonizados. Nesta base, acreditamos ser no seio dessa dinâmica que se deve encontrar o fundamento das tensões, conflitos e rupturas que caracterizam as sociedades coloniais, encontrando-se, conseqüentemente, a explicação necessária ao tipo de produções literárias surgidas dessas mesmas sociedades e que espelham as dicotomias acima referidas. Deste modo, mais facilmente poder-se-á chegar ao fundamento subjacente à irrupção de novas formas de fazer literatura, como as introduzidas pelos autores hispano-americanos e pelos moçambicanos Couto e Khosa, que, acreditamos, além de fazerem parte e serem resultado de todo um processo evolutivo de natureza histórica e sociocultural, associado a percursos inerentes às ‘literaturas emergentes’, estão igualmente matizadas por essas dinâmicas próprias das sociedades onde o fenômeno colonial foi um fato.
Por outro lado, quando olhada a complexidade dos contextos em que estas literaturas surgem, contextos marcados por fenômenos de interação de diversas práticas semióticas, de diferentes tradições e civilizações, de visões do mundo diferentes e de diferentes práticas sociais[19], facilmente se pode inferir que elas provêm de uma encruzilhada cultural. Neste sentido, estas literaturas podem ser vistas, também, como ‘espaços de síntese’. Expressão emprestada do mesmo Matusse aqui reiteradamente citado, o fundamento do seu conceito deve ser encontrado, na sua configuração, não só no interior das relações dicotômicas apontadas, onde se acham as tensões, conflitos e rupturas de ordem cultural e outra, mas sobretudo no tecido social e nas trocas culturais ocorridas antes, durante e mesmo depois da dominação colonial, e cuja contribuição para o estabelecimento de um certo tipo de visão própria dos autores hispano-americanos e dos moçambicanos Couto e Khosa se nos afigura deveras relevante.
Com efeito, as culturas de onde provêm as literaturas latino-americanas e a moçambicana são historicamente mestiças, como resultado de elementos indígenas, africanos e aluviões imigratórios, na América Latina, bem assim por elementos locais, árabes e orientais, em Moçambique, agravados, em ambos os casos, pela inserção de valores e normas trazidos pelos conquistadores coloniais. Este aspecto parece-nos estar revestido de extrema importância, uma vez produzir uma situação de mestiçagem – ou crioulidade, no sentido de Abdala Júnior[20] – que, como configuradora de ‘espaços de síntese’, ganha pertinência significativa ao poder sustentar uma explicação para o caráter conflitivo com que é vivida a experiência de busca e reconquista de uma identidade própria por parte das ‘literaturas emergentes’. Entendemos ser necessário considerar a heterogeneidade daí resultante como partícipe da definição dos eixos fundamentais dessas literaturas, aspecto que nos parece igualmente relevante ao nos abrir mais uma possibilidade de encontrar na sua dinâmica a fundamentação necessária às novas formas e temas desenvolvidos quer pela nova narrativa hispano-americana, quer pela nova escrita moçambicana. No que toca ao caráter conflitivo que acompanha o percurso da busca e reconquista de uma identidade própria por parte das ‘literaturas emergentes’, parecem-nos sintomáticas as palavras do escritor cubano, Alejo Carpentier, pronunciadas em Caracas após o seu regresso da Europa[21]:
Estaba saturado de Europa. Sentía que empezaba a perder pie. Me espantaba llegar a parecerme a uno de esos intelectuales americanos que se destierran, y sin lograr nunca ser europeus, dejan también de ser americanos. No quería ser uno de esos productos híbridos que tanto abundan en la historia de nuestras artes.
Para o caso de Moçambique, Fátima Mendonça percata-se do mesmo fenômeno a partir da sua posição de estudiosa da literatura moçambicana, analisando os conteúdos da política de assimilação do Estado colonial[22]: “um dos conteúdos da assimilação é a ruptura. Ser assimilado implica romper com um universo cultural e lingüístico de que se é herdeiro para se optar por outro imposto como alternativa para o prestígio e ascensão sociais. O assimilado já não é africano e nunca será europeu”. Quer num caso, quer noutro, a idéia subjacente é de um conflito de identificação cultural presente ao longo de todo o percurso e processos de formação das respectivas literaturas; por um lado, como resultado do imenso contacto cultural vivido pelas suas sociedades, por outro, e sobretudo, como resultado da imposição de valores culturais estranhos às suas tradições, muitas vezes em processos autenticamente violentos. Esta situação vai se refletir, pois, nos contornos que estas literaturas deram, e dão, para afirmar as suas autonomias e identidades nacionais, e mesmo nas estratégias adotadas nos níveis temático e estético dos textos que vão produzir.
Além deste caráter conflitivo, a imposição da cultura ocidental instaurou, necessariamente, a coexistência de culturas substancialmente diferentes: uma, racionalista e européia, e as outras, ainda envoltas num universo mágico e mitológico, americano e africano (moçambicano). Distanciadas, embora – no pensamento e nas práticas –, parece-nos no entanto indiscutível a relevância do seu papel no delineamento da nova narrativa hispano-americana e nas propostas narrativas de Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa, como reflexo de uma visão atinente a esses cruzamentos culturais. Em nosso entender, só culturas mestiças como as aqui descritas têm a capacidade de produzir adequadamente sistemas de representação literária que anulam a conflituosidade dos elementos díspares que os integram, o que permite compreender que os autores hispano-americanos e os moçambicanos Couto e Khosa possam estabelecer, nas suas obras, a coexistência não-conflitiva entre esses elementos, não só como reflexo do imaginário resultante da dinâmica das suas sociedades, mas como alternativa – a nosso ver, única – de apresentar uma síntese cultural dos respectivos espaços. Neste sentido, e independentemente de qualquer estudo sobre fontes e influências, temos que aceitar este fenômeno como representação artística das estruturas sociais dos países outrora colonizados, uma recuperação, também artística, de todas as tensões, conflitos e rupturas próprios destas sociedades, cujo fundamento só pode ser atribuído aos processos históricos e socioculturais.
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[1]A Construção da Imagem de Moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani ba ka Khosa. Maputo: Livraria Universitária, Universidade Eduardo Mondlane, 1998, p.53.
[2] No sentido em que este conceito está imbutido da noção de ‘semiose colonial’ de Walter Mignolo, citado por Matusse, isto é, “Besides a changing terminology between colonial, post-colonial and Third World societies, I perceive colonial semiosis as a concept relevant for all of them”, onde o adjectivo ‘colonial’ não se refere a uma vinculação do sujeito ao ponto de vista do colonizador, mas sim ao contexto, que permite a assunção das mais diversas atitudes perante o facto colonial (grifo nosso)(Cf. Matusse, Op. cit., p.35-38).
[3] Cf. Sandra NITRINI. Literatura Comparada. História, Teoria e Crítica. São Paulo: Edusp, 1997. p.127.
[4] Zhirmunsky, Victor. “Sobre o Estudo da Literatura Comparada”. Em Coutinho, Eduardo F. e Carvalhal, Tania Franco (Org.). Literatura Comparada. Textos Fundadores. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p.199.
[5] Cláudio GUILLÉN. Entre lo uno y lo diverso. Introducción a la literatura comparada. Barcelona: Editorial Crítica, 1985, p.80.
[6] Id. Ibid., p.80-81.
[7] Cf. Op. cit., p.127.
[8] Op. cit., p.53.
[9] Assumimos esta expressão como referência a correntes literárias de fora da Europa.
[10] Zhirmunsky. Op. cit., p.207.
[11] Inocência Mata. “O espaço social e o intertexto do imaginário em Nós Matámos o Cão-Tinhoso”. Em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Comunicações apresentadas no Colóquio sobre Literaturas dos Países Africanos de Língua Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Acarte, Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte, 1987, p.107.
[12]Cf. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa – II. Amadora, Instituto de Cultura Portuguesa, 1977, p.102-103.
[13] Cf. Victor M. de AGUIAR e SILVA. Teoria da Literatura. 6. ed. Coimbra: Almedina, 1984, p.221.
[14] Guillén, Op. cit., p.93-94.
[15] Op. cit., p.75-76.
[16] Matusse, Op. cit., p.37.
[17] Cf. Frantz FANON. Os Condenados da Terra. 2. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-185.
[18] Fátima MENDONÇA. “Literatura Moçambicana. Da Assimilação à Libertação” e “Para Uma Periodização da Literatura Moçambicana”. Em Op. cit., p. 19-45.
[19] Matusse, Op. cit., p.38.
[20] De uma profunda miscigenação cultural (Cf. Abdala Jr., Benjamin. Literatura. História e Política. São Paulo: Ática, 1989, p.39.).
[21] Em Roberto G. ECHEVARRÍA. Alejo Carpentier: El peregrino en su patria. México: Difusión Cultural, 1993. p.49.
[22] Fátima MENDONÇA. Op. cit., p.11-12.